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No meio do caminho tinha uma pedra. Comentário da Série Sobre Crack ZH 16/07/2008
Foi publicada no Jornal ZH do dia 16 de julho, na página 2, uma nota em referência a uma manifestação do Dr. Rogério Lessa Horta, sobre uma série de reportagens sobre o crack que este veículo publicou ao longo da semana anterior. Abaixo segue uma versão resumida do texto enviado a ZH.
NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA
Rogério Lessa Horta
A pedra no caminho hoje é o crack. Alguns aspectos do fenômeno, no entanto, merecem destaque:
O crack nos chega porque existe tráfico. Crack é cocaína e há muito tempo fomos incluídos nesta rota. Não se deve discuti-lo sem problematizar a vigilância de fronteiras, portos e aeroportos, e outras ações de vigilância que deveríamos ver efetivas.
O crack é rápido, mas não se move por conta própria. Alguém precisa prepará-lo, ofertá-lo, comprá-lo e fumá-lo. Do contrário, não chega ao organismo. Todos estes movimentos se dão em ambientes que, de muitas formas, são permissivos. Somos uma sociedade que tende à passividade. Levamos muito tempo para nos convencermos que deveria ser proibido fumar em recintos fechados. O fumante tinha seu direito de consumir sua droga preservado, em detrimento de todas as pessoas importunadas e colocadas na condição de fumantes passivas. A restrição ao consumo de álcool nas universidades e, mais recentemente, nos estádios de futebol e agora no trânsito tem como única e suficiente explicação o fato de que havia excessos e o consumo de álcool perturba o desenvolvimento daquelas atividades. Nada pode ter tanto impacto sobre os problemas que decorrem do uso de drogas quanto o estabelecimento de regras de conduta que comuniquem que o consumo de substâncias deve ter limites porque implica em riscos. A passividade das pessoas em geral é mais letal que as substâncias por si.
Não é o crack que assalta ou fere. Toleramos e convivemos com assaltos, roubos e outras violências há décadas neste país. É por esta via que o crack se associa à violência. A insegurança das ruas não começou com a epidemia do crack, pelo contrário, é por meio dela que os usuários de crack encontram o caminho mais curto para a obtenção da droga. Este cenário não é decorrente da existência do crack, mas um terreno fértil onde o crack floresce e se reproduz com grande facilidade. Corremos o risco de ingressar numa imensa cortina de fumaça e acreditar que tudo se resolveria se o crack não existisse.
Isentando o estado e as comunidades, evitamos o debate dos itens acima e chegamos à percepção de que a droga é um problema dos indivíduos ou, no máximo, de suas famílias.
No indivíduo, de fato, o crack se associa a problemas de saúde, com perturbação comportamental e prejuízos. Como fenômeno relativamente recente, o consumo de crack vai levando as pessoas com mais problemas a buscarem os serviços de saúde e esta busca promove a produção do conhecimento, a pesquisa e o desenvolvimento de técnicas e recursos específicos. Duas especificidades parecem demarcar bem as dificuldades nos cuidados com a população usuária de crack: o problema do acesso aos serviços e a especificidade das manifestações clínicas ligadas ao crack.
O problema do acesso aos serviços nos remete de volta a uma questão de estado, pois envolve a insuficiência de leitos, mas, antes disso, de recursos básicos. Só as equipes de atenção à saúde das famílias, presentes nas comunidades e próximas dos domicílios poderiam prover atenção qualificada necessária em fases iniciais destes problemas. Porto Alegre, além de poucos leitos psiquiátricos tem poucos serviços especializados (CAPS-AD) e menos da metade do número de equipes de saúde da família (ESF) que deveria ter. Quem cuida das pessoas para que não precisem chegar aos hospitais? Aonde as pessoas vão ao saírem dos hospitais? É um equívoco imaginar que apenas a oferta de leitos ou vagas em comunidades terapêuticas resolverá o problema.
Quanto às especificidades clínicas, de volta aos indivíduos, cada droga tem um perfil próprio. O crack tem um perfil de “fissura” muito peculiar, com ocorrência de crises muito intensas, podendo incluir aí comportamentos extremamente agressivos, mas passíveis de controles farmacológicos, até bastante acessíveis e disponíveis no SUS. O problema reside no fato de que a ocorrência destes picos é intermitente, de curta duração, recorrente e imprevisível. O adequado emprego de fármacos depende do monitoramento adequado e do trabalho de psicoeducação. A psicoeducação é o treinamento do paciente e de seus familiares ou cuidadores para o reconhecimento das manifestações iniciais do quadro e para o correto monitoramento e emprego da medicação.
É possível tratar os transtornos decorrentes do uso do crack. É preciso que as pessoas encontrem condições mínimas de apoio e motivação para a mudança de comportamentos que facilitam, induzem ou predispõem ao uso das substâncias. Isso implica no exaustivo trabalho de psicoterapeutas, terapeutas ocupacionais, equipes de enfermagem, dos agentes comunitários de saúde e dos redutores de danos, que atuam no contato direto e inicial e no dia-a-dia do consumo.
É verdade que existe uma pedra no caminho, mas há gente trabalhando, só que ainda é muito, muito pouca gente! Enquanto isso, Drumond segue tendo razão!
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No meio do caminho tinha uma pedra. Comentário da Série Sobre Crack ZH 16/07/2008
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